22 junho 2006

Dar de beber a Lázaro

E clamando, disse: Pai Abraão tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Lucas 16:24

Dei para ser insano ultimamente, pois que a normalidade que cultivei por tanto tempo, nada transformava ao redor.
Cansei porque a distância entre o discurso e a ação, comporta um congestionamento paulistano de fim de tarde com tempo chuvoso.
Dar vez e voz aos oprimidos significa no primeiro momento, defrontar-se com lamentos e revoltas, porque foi isso que se gerou como sub-produto da postura excludente e elitista, que os grupos pretensamente dominantes mantiveram ao longo da história.
Não é possível, conceber o sentimento que vai no peito daquele que assistiu ao crescimento dos muros e o engrossamento do livro de regras, sentado na chaise long diante da lareira sorvendo uma dose de brandy.
Impossível também, conceber a fome, discuti-la, enquanto se vasculha o armário à procura de um digestivo para ajudar a digerir o assado servido no jantar.
É preciso viver do lado de fora do muro, é preciso ter passado fome.
Nascemos de um assalto, uma esquadra colonizadora, a rampa era feita da areia da praia, as vidraças de árvores e a sociedade constituída vivia pelada.
A fórmula se repete até hoje e as caravelas de agora, vem de todos os lados.
Tomam-se de assalto os lindos vales para construir hidrelétricas, invadem-se as florestas para produção de tábuas. Erguem-se muros com cerca elétrica e vigilância armada, colecionam-se livros para deleite das traças.
Se sabidamente esse modelo que está aí que favorece alguns em detrimento de muitos, não é mais suportável, ou bem engrossamos a fatia dos incluídos, ou todos nos devoraremos.
Ou bem abrimos as portas dos muros, ou a patrola do nosso pífio senso de segurança, vai derrubá-lo sobre nós. Ou bem repensamos o modelo consumista que limita de um lado e escraviza do outro ou veremos crescer os movimentos dos “sem”.
Sem terra, sem teto, sem camisa, sem comida, sem roupa, sem dente, sem escola, sem eira nem beira e aí teremos um país sem controle, sem respeito, sem oportunidade.
Somos radicais ao nos considerarmos eleitos de sei lá o que e atraímos então o radicalismo dos que sabidamente estão do lado de fora da estrutura de progresso e oportunidade.
A hierarquia linear que nos comanda, constrói líderes e liderados, uma hierarquia circular, colocaria a responsabilidade nas mãos de todos. Cada cidadão fazendo sua parte. Todos tendo acesso à escola e todos zelando dela, menos doutores e mais técnicos, nada de processos seletivos canhestros, mas de históricos construídos desde o mais tenro banco da escola infantil.
Ensinar sim desde a escola infantil, que somos todos humanos e com os mesmos direitos, sejamos da etnia, religião, sexo ou opção qualquer de vida. Que acima de tudo vem a liberdade de existirmos como indivíduos.
Enquanto nos encastelarmos egoisticamente na ilusão das conquistas pessoais, do primeiro eu, do f...-se os perdedores, limitando os saberes, desrespeitando as culturas e a diversidade, impondo um modelo único de perfeição, Lázaro estará estirado ao pé do muro, catando as migalhas do falso poderoso que haverá um dia de pedir a esse mesmo Lázaro que molhe a ponta dos dedos para acalmar a brasa ardente que o consome.

16 junho 2006

Argila Fresca




sou argila fresca entre teus dedos.
molda-me,
de tua mão não tenho medo,
não ofereço resistência,
transforma-me.
de que outro modo valeria a pena,
se não fosse assim,
se eu não me entregasse inteiro?

Quatro Elementos




A Terra e a Água
Até conhecer você, fui apenas água.
Espraiado, inundante, fluido.
Que desespero!
Ao me ver contido em tuas margens,
julguei-me enclausurado.
Levou tempo, até que eu me desse conta,
que era em teu colo firme, que eu,
líquido, repousava.
Recuperando a força, reencontrando o rumo.
Bendita sejas, terra!
Que na aparente dureza
da cova aberta em teu seio,
me aconchegaste, me conduziste.
Pela firme compressão dos teus flancos
me percebi mais livre, ganhando velocidade,
gerando energia e sabendo
em que direção ela manava.

O Fogo e o Ar
Teria sido apenas um lampejo,
consumido da energia de mim mesmo.
não fosse o sopro,
o invisível berço,
que me tomou de sobressalto.
Estranho!
Que combustível este,
a me aumentar as formas.
me propagando ao ponto,
onde mais nada houvesse,
que o meu calor não alcançasse?
Terias sido tú, o silenciar daquilo.
que repousa no éter!
Teria sido eu apenas um forno,
que não conheceu o pão da alma.
Nada serias, além de sopro frio e sem guia.
Nada eu seria além de luz que brilha.
Nem haveriam idéias
Tampouco a vontade de tê-las.

12 junho 2006

Vale a pena




Que todos se enamorem de si mesmos,
Não como narcisos,
mas reconhecendo o próprio valor.

O amor não está à venda nas vitrines.

Tenham uma semana de cabeça boa e coração leve!

05 junho 2006

Uma Mulher chamada D

Quem é o iluminado?
No seu tempo, é sempre um louco delirante que faz tudo diferente de todos. Ele sofre, principalmente, de um alto senso de dignidade humana - o que o torna insuportável para todos os próximos - que são indignos.
Ele sofre, depois, de uma completa cegueira em relação à "realidade" (convencional) que ele não respeita nem um pouco. Ama desbragadamente - o sem vergonha. Comporta-se como se as pessoas merecessem confiança, como se todos fossem bons, como se toda criatura fosse amável, linda, admirável.
Assim ele vai deixando um rastro de luz por onde quer que passe.
Porque se encanta, porque se apaixona, porque abraça com calor e com amor, porque sorri e é feliz. Como pode esse louco?....

(trecho da introdução do livro "A Carícia Essencial" - Roberto Shinyashiki)

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